Entrevista com Boris Malagurski

Boris M
Boris M

Voltar ao O Peso Das Correntes

Entrevista com Boris Malagurski (Diretor)

Por você resolveu fazer um documentário sobre as guerras na Ex-Iugoslávia?
O filme que produzi antes de O Peso Das Correntes falava das violações dos direitos humanos das minorias no Kosovo e eu senti que analisando as causas daquele conflito eu poderia explicar porque há tanto ódio naquela parte do mundo.  A crise do Kosovo não pode ser examinada sem estudar as razões mais profundas, o porquê da ex-Iugoslávia ter desabado em meio à guerra.

Como alguém que nasceu na Iugoslávia, minha infância foi, em grande parte, livre de conflitos étnicos, apesar de certo grau de intolerância, entre alguns indivíduos de diferentes grupos étnicos, que sempre esteve presente. Penso que o nacionalismo surgiu em meio à turbulência econômica gerada pela reforma desorganizada, pressionada pelo Ocidente. Com diversos grupos de interesse externo impondo sua própria agenda nos Balcãs, a ex-Iugoslávia foi levada a várias guerras civis. Muitos noticiários de grande visibilidade apresentaram a guerra como sendo puramente baseada no nacionalismo, culpando os Sérvios ou Slobodan Milosevic por tudo, o que faz pouco sentido, considerando que os diferentes grupos étnicos foram capazes de viver em paz na Iugoslávia por meio século. Eu queria contar a história do meu país, que já não existe, e mostrar o que eu acredito ser o verdadeiro motivo da separação.

Este documentário pode ser visto como o ponto de vista interno sobre a guerra?
Na maior parte, sim. Eu entrevistei várias pessoas que estava na Iugoslávia no momento do rompimento e que, até certo ponto, faziam parte do que estava acontecendo. Por exemplo, Ret. Maj. Gen. Lewis Mackenzie estava encarregado do setor Sarajevo pela ONU, durante a guerra, e deu sua opinião sobre a forma como os Estados Unidos estavam envolvidos nas operações militares na ex-Iugoslávia. O jornalista canadense Scott Taylor estava lá enquanto as coisas aconteceram e deu detalhes sobre como a Alemanha armou os separatistas croatas.

Além dos "internacionais" presentes na região, eu entrevistei muitos iugoslavos cujas histórias foram largamente ignoradas pelos meios de comunicação ocidentais. No momento em que era mais vantajoso publicar histórias de crimes e massacres, muitos indivíduos corajosos colocaram as vidas em risco para buscar uma solução pacífica para o conflito, ou expor aqueles que vinham prejudicando muitas pessoas. As histórias de auto sacrifício poderiam ter mudado a maneira como os diferentes grupos étnicos na Iugoslávia percebiam uns aos outros. Em vez disso, a propaganda nacionalista foi incentivada de todos os lados; eu também procuro apontar como funciona internamente - como o consentimento para a guerra é fabricado pela mídia.

Explique-nos um pouco da tese do filme, que apresenta a perspectiva de uma guerra forçada pelo mundo ocidental em favor dos seus interesses na região.
É importante notar que a Iugoslávia estava desabando no momento que a tradicional divisão Ocidente Capitalista e Leste Comunista ia se apagando. O Ocidente perdeu seu maior inimigo, personificado pela União Soviética, e a OTAN estava em busca de um novo inimigo. Quando Ante Markovic, último primeiro-ministro Iugoslavo, visitou Washington em busca de ajuda para seu projeto de reformar a economia socialista de mercado em direção a um modelo de livre comércio, George H. W. Bush se recusou a vê-lo e, em vez disso, aprovou uma lei incitando as repúblicas dentro da Iugoslávia a realizar eleições nacionais em vez de mantê-las em nível federal. A ajuda seria liberada individualmente para as repúblicas, mostrando que o interesse dos Estados Unidos era o colapso da Iugoslávia.

Depois que partidos nacionalistas e separatistas ganharam as eleições nas repúblicas com mais de uma nação (na Croácia eram croatas e sérvios, na Bósnia, sérvios, croatas e bósnios muçulmanos), favorecendo uma nação às custas das outras e declarando independência unilateral, a guerra civil era uma consequência inevitável. Em vez de fomentar o diálogo, o Ocidente, liderado por Alemanha e Áustria, decidiu reconhecer as declarações unilaterais de independência da Eslovênia, Croácia e Bósnia.

Quando guerra estourou, a OTAN conseguiu o pretexto para intervir e estabelecer bases militares na região. Mas o que sobrou da Iugoslávia, Sérvia e Montenegro, ainda se recusava a ceder à pressão da OTAN. Então o Ocidente decidiu apoiar o movimento separatista em Kosovo, uma província autônoma, legalmente parte da Sérvia, levando a mais derramamento de sangue e, eventualmente, bombardeios da OTAN na Iugoslávia. Enquanto a OTAN ocupava Kosovo, e ocupa até hoje (a maior base Americana fora da Alemanha é Camp Bondsteel no Kosovo), outro tipo de ocupação se realizou. A ocupação da economia. Indústrias e empresas estatais, devastadas por sanções e guerras, foram privatizadas - vendidas abertamente a compradores estrangeiros por preços irrisórios. A ideia era criar um país não competitivo no mercado mundial, com sim mão-de-obra barata e um mercado para produtos estrangeiros.

Como os críticos e o público local e internacional reagiram ao filme?
A maioria das pessoas que assistiu ao filme com a mente aberta gostou. O filme recebeu críticas positivas do duas vezes vencedor da Palma de Ouro, o diretor Emir Kusturica, que decidiu exibir o filme no seu festival, Kustendorf. No entanto, após pressões do então Ministro da Cultura da Sérvio, Nebojsa Bradic, ex-membro do grupo político G-17 que cito no filme, defendendo os interesses do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial para a região, o filme foi retirado do programa há apenas uma semana da estreia. Ainda assim, o filme foi exibido no Festival de Cinema Raindance, em Londres, no Beldocs de Belgrado, no Festival do Novo Cinema Latino-Americano de Havana, no Festival de Imagens Em Movimento na cidade de Toronto, no Baneff em Oslo e muitos outros.

O público ficou muito intrigado com a tese do filme porque, até agora, não tinham tido oportunidade de ver um filme sobre a Iugoslávia diferente dos muitos já produzidos. Lembro de várias pessoas nos cinemas da Austrália, Canadá, Estados Unidos e Reino Unido me chamando depois da estreia pra dizer: "Obrigado por finalmente explicar a Iugoslávia para mim". Eu não acho que meu filme põe um fim à discussão sobre o tema; o objetivo é abrir o diálogo. Isso é muito difícil quando muitos grupos étnicos Iugoslavos e espectadores estrangeiros ignoram qualquer tentativa de desafiar o ponto de vista da mídia e dizem que é "propaganda". O que acontece é que as maiores críticas vem de pessoas que sequer viram o filme.

O que as pessoas verão na continuação do documentário?
A beleza dos documentários é que nem o diretor sabe como vão ficar antes da edição estar concluída. No entanto, como o script está quase completo, posso dizer que vai discutir o neoliberalismo e o Consenso de Washington, que imposto sobre as repúblicas da ex-Iugoslávia após a separação do país, e tentar explicar como é possível que uma década sendo um Estado excluído do Ocidente foi quase tão prejudicial para a economia como uma década sendo amigo do Ocidente. Por meio de entrevistas que já realizei com intelectuais como Noam Chomsky, Oliver Stone, Carla del Ponte, R. James Woolsey, Ivo Josipovic, Michael Parenti, Marcus Papadopoulos, Diana Johnstone, Soccoro Gomes, Vuk Jeremic e muitos outros, o filme vai documentar o que aconteceu na região da antiga Iugoslávia na década passada em relação à situação militar, a economia, a mídia, a educação, a assistência médica e outras áreas relevantes para a qualidade de vida, com ênfase na comparação com outros países onde o neoliberalismo foi imposto.

Além disso, o filme oferece algumas soluções para a situação - sugestões sobre como as pessoas, depois de assistir o filme, podem começar a se libertar do peso das correntes e se juntar aos que já o fizeram. Espero que o filme esteja pronto até o final do ano.

Voltar ao O Peso Das Correntes

Inscreva-se para receber o Boletim Informativo do Eurochannel!

Não perca as nossas últimas programações, sorteios e eventos exclusivos!